Vestível e extremo

No último desfile de outono/inverno, na temporada de Paris, a dupla holandesa Victor&Rolf, que sempre faz desfiles performáticos, revisitou sua própria trajetória, mais especificamente o desfile Babushka, do inverno 99-2000.

Começo do desfile

A modelo que abriu e fechou o desfile, Maggie Rizer, era a mesma nos dois desfiles. A lógica era a mesma nos dois desfiles. Rizer abriu o desfile coberta de camadas e camadas de roupa que triplicaram o volume de seu corpo. Então, essas camadas foram sendo desmontadas e usadas para vestir as outras modelos que iam entrando na passarela. Assim que acabaram as camadas, ela começou a ser revestida com outras peças e ao fechar o desfile estava enorme de novo.

Fim do desfile

Não é novidade mudar a roupa das modelos na passarela, as próprias peças também não são assim tão novidadeiras. Mas isso pode importar muito pouco, afinal nada é muito novidade.

Pois bem, a crítica do Style.com (site que reúne as Vogues e mais um tanto de outras coisas e que faz a gentileza de colocar as fotos do desfile de corpo inteiro em vez de cortar as imagens) disse o seguinte a respeito do desfile.

    “Mas qual é a mensagem por trás do teatral? Porque tirar a poeira de um projeto do passado diante de uma plateia que esteve lá e já viu isso? Depois do desfile, os estilistas explicaram que ‘Dessa vez, queremos mostrar algo que pode tanto ser vestível como ser extremo ao mesmo tempo. Vai além da mera ideia, está tudo pronto para ser produzido’. É uma noção interesante, mas não fica totalmente claro o quanto ela está relacionada, digamos, à ball skirt-cum-ruff (alguém pode me ajudar a traduzir isso?). No limite, não dá para não pensar que esse desfile será mais lembrado pelo espetáculo do que pelas roupas“.

Esse parágrafo tem tantos inícios de boas discussões que eu vou dividir em tópicos, a começar pela frase negritada.

“Esse desfile será mais lembrado pelo espetáculo do que pelas roupas”

Veja esse vídeo:

Para ver a compilação completa dos desfiles (esse é a parte 2 de 5), vá aqui.

Agora me explica, com o lamento uníssono à morte de McQueen ainda fresco na cabeça de todo mundo: faz algum sentido criticar um desfile porque ele será mais lembrado pelo espetáculo do que pelas peças? Não.

O que leva à segunda questão interessante.

“Está tudo pronto para ser produzido”

Eu tenho uma grande birra com desfiles de moda comerciais porque eles são falsos. Pergunto: qual é a função do desfile? Se a resposta for ‘apresentar um conceito, uma ideia, uma experimentação’, estamos falando de grifes conceituais, caso do Viktor&Rolf, Alexander McQueen, Hussein Chalayan. E nesse caso importa muito pouco se aquelas peças estarão nas araras das lojas. (Exemplos brasileiros, não entrando no mérito da qualidade do desfile, são a última coleção da Osklen e da Rosa Chá)
Se a resposta for ‘apresentar a coleção’, então tudo o que for mostrado na passarela deve estar nas araras, em tamanho P, M e G ou 36, 38, 40 e assim por diante. E ponto final.

Agora, o que acontece na real? As grifes fazem uma coleção toda esperta e legal para mostrar na passarela e quando você vai às lojas não há nada daquilo, mas sim versões adaptadas, amolecidas, pasteurizadinhas, prontas para serem vestidas.

Minha birra: ou você ousa e vai até o fim ou não ousa.
Não tenta enganar ninguém, porque é feio.

Acontece, voltando ao desfile de Viktor & Rolf, que eles estão fazendo as duas coisas. Experimentando (ok, não foi, de longe, o desfile mais ousado dos caras, mas compara com o que a gente costuma ver…) E levando essas peças, essas mesmas peças, cada uma delas, para as araras das lojas.

Releia o que os caras disseram depois do desfile: “queremos mostrar algo que pode tanto ser vestível como ser extremo ao mesmo tempo”.

ISSO é moda. Isso move a moda para a frente, mesmo que tenha partido de um olhar para trás.

Eu nem acho que todo mundo deva pirar e fazer coisas loucas. O desfile da Stella McCartney é lindo e não é extremo. Mas isso é outra conversa.

Digressão
Em 2004, eu descolei uns convites de primeira fila para a SPFW. E no desfile do Jun Nakao, eu sentei do lado da Regina Guerreiro. Como estava escuro, ela achou que eu era a assistente dela e passou o desfile comentando comigo cada entrada. E a primeira coisa que ela disse quando o desfile começou foi: “Ai, Viktor&Rolf já fizeram isso em 1999. A coleção em questão era a Módulos e dá para ver algumas imagens aqui. (Em tempo, eu achei essa coleção do Nakao boa na época e continuo achando, ela explorava outras ideias usando o mesmo mecanismo)

Uma resposta para “Vestível e extremo

  1. Isso, Helô, mostra pra eles!

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