Sem pelos, nem cascas, nem banhas, nem mucosas

Uma pessoa sem sobrancelhas passa uma imagem de saúde debilitada. Uma pessoa esquálida passa uma imagem de desnutrição. Mas por algum motivo pessoas muito magras e sem sobrancelhas são tidas como modelo de beleza nas passarelas da SPFW.

Até aí nada de novo. A moda prima por esquisitices e faz sentido que seja assim: uma das funções dela é experimentar estéticas. Estranho é quando esse padrão se espalha por diversas passarelas. Isso normalmente indica que aquilo vai acabar virando moda de fato.

A questão da magreza é velha conhecida, está em pauta há tempos e eu vou voltar a falar disso aqui.

Agora eu quero falar do fato de terem apagado as sobrancelhas.

Breve retrospecto
Tudo começou nas unhas. O esmalte nude entrou na moda há algum tempo. Ele tem a cor da pele de uma pessoa de pele branca. E quando você passa ele nas unhas, elas ficam cor da pele e a sua mão fica igual à dos personagens da Turma da Mônica. Depois vieram as bocas. O batom cor da pele, que existe desde sempre, veio com tudo e apagou os lábios das mulheres.

Agora é a vez das sobrancelhas. Vai entrar na moda esse papo de descolorir as pestanas, de deixá-las invisíveis. O resultado pode ser descrito de duas formas:

1. A sobracelha descolorida suaviza a expressão
2. A sobracelha descolorida deixa a mulher com cara de doente

Não depende só de quem está olhando. Tem gente que embirra com tudo que é moda. Eu não tenho birra e acho divertido que algumas pessoas vistam todas essas camisas. Depende sim de quem olha mas também de quem adota. Se combina, se não combina etc e tal. Mas isso é papo para revista feminina e não para blog.

Eu quero chegar a outro ponto. O que quer dizer apagar as unhas, a boca e a sobrancelha?

Eu arrisco um palpite. Para mim, a moda quer apagar o que é de bicho no homem. Se cagamos, mijamos, suamos e temos pelos, coisas grotescas que nos lembram o tempo todo que somos animais, isso não interessa à moda. Então que seja escondido. Que pelos, banhas, cascas, cacas e mucosas sejam todos apagados da nossa cara e do nosso corpo.

Esse é o meu palpite.

Mas é preciso separar as coisas. Porque essa sugestão de transformação do corpo humano pode caber na moda. Uma das funções dos criadores é propor visões não-convencionais, experimentar, testar fronteiras. (O excelente livro Fashion at the Edge, de Caroline Evans, dá conta de vários momentos em que a moda chocou, machucou, destruiu e massacrou a imagem da mulher, quase sempre como uma proposta de reflexão).

Coleção primavera/verão 2001 de Alexander McQueen, a imagem veio do (excelente) livro Fashion at the Edge

No desfile de verão de 2001, Alexander McQueen (veja o desfile aqui) prendeu as modelos em um aquário, enfaixou a cabeça delas e criou uma atmosfera de manicômio. Ele quer dizer que ser doido é bonito? Sim e não. Ele quer incomodar? Sim. Ele quer provocar a reflexão? Provavelmente. (E se sobrar tempo, ele quer que você ache as roupas lindas e pague os tubos por uma delas).

O que incomoda nessa moda de apagar as sobrancelhas na SPFW é que marcas nada conceituais, como Fórum, Iódice, etc. adotaram esse look. E a diferença é essa: eles não estão propondo uma reflexão, não estão apresentando uma ideia. Eles estão dizendo: isso é bonito.

Não querem testar limites do corpo. Querem que você entenda que é assim que deve ser.

Ok. Mas há ainda uma outra forma de olhar para isso. A grife apaga o rosto e o corpo da modelo (esse papo de que elas são meros cabides) para direcionar a atenção para as roupas.

Primavera-verão 2009, Martin Margiela. A foto é da galeria do Style.com

No desfile da temporada primavera/verão 2009, o estilista belga Martin Margiela (veja o desfile aqui) cobriu a cara das modelos com uma meia cor da pele. Eram não-pessoas, mas a Maison Margiela é tradicionalmente porta-voz de experiências e de fato havia motivo para direcionar a atenção para as roupas.

Desfile de inverno 2010 da Ellus

Agora olhem de novo para as passarelas nacionais. Aqui os rostos não estão apagados. Há uma sugestão, as modelos estão penteadas, maquiadas, elas estão sendo mostradas, sim, com uma ideia de beleza. Então esse papo de chamar a atenção para a roupa nesse caso não cola.

Se isso vai ficar restrito ao mundinho da moda? Pode ser. Mas que tem alguma coisa muito estranha aí, isso tem.

*

*

PS: Escrevi sobre a moda de apagar as sobrancelhas para o blog de Moda do Estadão, veja post aqui, e na versão impressa do jornal de 20/1, veja aqui

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23 Respostas para “Sem pelos, nem cascas, nem banhas, nem mucosas

  1. helô, lembra uma vez lááá, sei lá, em 1994, que o reinaldo lourenço (ou era o loureiro) colocou os modelOs pra desfilar de meia na cabeça, estilo ladrão de banco, e foi um auê? beijo!

    • Putz, eu tava muito querendo lembrar isso… não consegui lembrar a data… vou procurar.

    • Álamo Bandeira

      Ricardo Almeida, em um inverno há muito tempo atrás, também “apagou” os modelos, como forma de negar que os desfiles dele (na época, cheio de atores nas passarelas) era só um show de egos. Foi muito bom, não lembro desse do reinaldo…

  2. Cheguei aqui via Dani Arrais. Adorei o post e fiquei pensando também no desfile do Ronaldo Fraga, que colocou os rostos virados para trás, nas costas, como faziam os antigos caçadores de tigres.

  3. acho que não podemos esquecer, que os desfiles da SPFW enquanto divulgadores de tendência, também são as chances máximas que aqueles estilistas tem para mostrar seus diferentes pontos de visão sobre moda, tendência, etc.

    países que têm a moda como industria mais respeitada que a do brasil, como frança, eua, tem semanas de moda mais definidas e coleções menos espaçadas umas das outras, que dá a chance de o estilista mostrar as roupas nos desfiles de RTW que consistem em combinações fáceis da roupa para os compradores e no meio tempo entre as coleções de RTW ainda têm os desfiles das coleções cruise e high summer em alguns lugares, ou seja são inumeras chances de mostras a ROUPA. E na frança, e somente lá, existe a temporada de alta costura, o que permite ha alguns poucos estilistas mostrarem o que podem fazer de mais artístico, sobre o prisma da moda.

    O SPFW está no caminho para educar o brasileiro sobre o que é a moda e quais são seus movimentos, mas enquanto não enxergamos a moda enquanto indústria e continuarmos dando 2 chances por ano de os estilistas mostrarem seu trabalho, sempre seremos surpreendidos por apelos de bizarrice, que teoricamente não deveriam estar ali, já que aqui são desfiladas as coleções RTW. é um mix de referencias e atitutes em um único desfile o que torna tudo mais confuso.

    me alonguei, sorry.

    • Killer 155, fique à vontade quanto ao espaço. Eu concordo com vc, a moda aqui ainda engatinha. Mas honestamente eu acho que as grifes brasileiras não precisam de mais desfiles. Acho até que já tem desfile demais. Mas concordo com vc em um ponto: o RTW brasileiro é uma loucura, mistura um pouco de tudo e acaba sendo bem pouco pronto para vestir (quantas daquelas roupas vão para as araras das lojas? poucas.)

  4. Moda é escape, sonho… você chegou bem ao ponto. Toda a industria ligada ao sistema vende um não homem, um não ser, isso ainda domina a maioria dos produtos à venda.

    O Brasil que daqui a alguns estará ‘in voga’ devido aos eventos esportivos, podia aproveitar os olofotes para demostrar que uma configuração confortável e natural do corpo não é só possível, como bonita e desejável… imagem essa que o mundo já tem de nosso país.

    Dá pra ser ético e fashion no capitalismo.

  5. Vi esse link no twitter do Piangers e adorei o texto. Muito bem escrito, e claro um ponto de vista super legal das passarelas.

    Não concordo com essa imagem de doente das modelos, as mais famosas do mundo não desfilam com cara de doente, e sim bem maquiadas e arrumadas. Uma bela mulher sempre vai valorizar a roupa, assim como a roupa deve favorecer a mulher.
    Tbm não gosto do estilo de corpo, que tu precisa analisar bem para saber se é homem ou mulher de tantos músculos.

    A verdade, é que hoje em dia é difícil encontrar uma simples beleza feminina, nem tão seca demais e não tão forte assim.

  6. Essa moda saindo das passarelas para as ruas, pra mim, mostra o quanto as pessoas não pensam moda, apenas consumem. E, nas passarelas, se o propósito é ter um cabide ambulante, as marcas brasileiras nos mostraram exatamente que não pensam moda, apenas compram de um lado e vendem do outro. Ainda temos muito que caminhar…

  7. Olá, cheguei aqui pelo twitter, achei seu texto excelente. Eu, em minha visão egocêntrica, pensei apenas na minha própria imagem sem sobrancelhas e no h0rror que isso seria. É bom ler uma visão crítica mais ampla.
    Às vezes acho que as modelos parecem doentes porque na realidade elas estão doentes mesmo. Não comem, não têm horário regrado, lidam com a rejeição o tempo todo, como se nunca fossem boas o suficiente para nada. Doentio.

  8. Ao invés de RTW temos visto tentativas um tanto ridículas de transformar os desfiles nacionais em apresentações de alta costura.
    O resultado é uma cofusão mental e modismos bizarros indo para as ruas.
    Existe uma grande diferença entre os desfiles conceituais e os RTW que deveria ser amplamente divulgada pela mídia. Ao contrário, nossa mídia só estimula o consumo sem consciência.

    • Mel, eu fico na dúvida se há uma tentativa de transformar os desfiles nacionais em alta costura… Acho que tem marcas que querem ser alta costura e outras que fazem o comercial bem arroz-com-feijão. E isso pode acontecer um depois do outro… O resultado, como vc bem definiu, é o da confusão mental mesmo.

  9. Adorei o texto e a discussão! É tão gostoso ler um texto crítico e aprofundado em meio a tanto deslumbre… Que também é gostoso, claro, mas não só isso o tempo todo. ;-)

    • Flávia, que bom que vc gostou. Eu espero que outras discussões aconteçam. Já estou aqui queimando a cuca para decidir sobre o que mais escrever.
      Visite sempre, eu prometo que vou tentar equilibrar as discussões e os deslumbres.

  10. Pingback: Confusão das Modas « Killer 155

  11. Eu gostei muito do texto e dessa teoriza de tirar o que há de animal no ser humano, mas achei que vc se traiu na matéria impressa. Lá vc vendeu o nude como padrão de beleza, da mesma forma que as marcas que você criticou fizeram.

    • Carolina, entendo a sua questão. Mas são duas coisas diferentes. Esse aqui é o meu blog, eu escrevo aqui o que eu acho, o que penso, qual a minha opinião sobre as coisas. O meu trabalho no jornal é como repórter. Eu transmito informação, não opino.
      Outra coisa: eu não condeno a sobrancelha descolorida. Digo isso no texto: não tenho birra com modinhas.
      Eu só estou propondo uma reflexão: o que isso quer dizer?
      Enfim, sendo breve, não, eu não me traí.

  12. Nossa, tá bafo esse blog! Até a Biti comentou!
    Chiiique

  13. Pingback: Como você chega aqui? « Caracteres com espaco

  14. Pingback: Um ano característico | Caracteres com espaco

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